O Sino que não caiu.
São João Batista -onde o tempo ainda reza em guarani.
O sino que não caiu
Na
madrugada anterior ao combate, a redução de São João Batista respirava como um
animal ferido que ainda não sabe que vai morrer. A neblina vinha do rio como um
incenso antigo, cobrindo as casas de pedra, o colégio, a igreja e o pátio onde,
séculos depois, apenas o vento ousaria pisar.
Arandú;
velho rezador e guardião das palavras, caminhava descalço até o sino maior.
Diziam que o dobrador, fora fundido com prata e lágrimas... foi trazido de Córdoba pelos
padres; mas despertado pelos cantos guaranis. Não era apenas um sino: era um
chamador de almas.
A guerra se
aproximava. Espanhóis e portugueses já haviam decidido; em mapas frios, que
aquele povo não existia. Mas Arandú sabia: quem é lembrado pelo espírito da
terra nunca morre por decreto. Quando o primeiro tambor soou ao longe... o som não
era das rezas guarani, nem europeu; mas o ritmo seco da pólvora.
- Arandú pousou a mão no bronze do sino.
Sentiu pulsar ali não o metal; mas o coração da missão.
- Rezou baixo, em guarani antigo, pedindo não a
vitória, mas a permanência.
- Ñande
Reko não se entrega — sussurrou.
- Naquele instante, o tempo se dobrou.
Os jovens guerreiros que corriam para as paliçadas viram, por um segundo, figuras caminhando entre eles: padres de batina rasgada, crianças ainda não nascidas, velhos que morreriam naquela manhã e outros que só existiriam na memória futura. Todos marchavam juntos, como se a redução inteira tivesse se tornado um único corpo.
- O
primeiro tiro ecoou.
O sino deveria cair; assim diziam as profecias dos
invasores... mas não caiu. O impacto da bala que o atingiu atravessou o bronze
sem som, como se o metal tivesse se tornado água. O badalo tocou sozinho, não
para os vivos, mas para os que ainda viriam ouvir.
Quando São João Batista foi tomada, queimaram casas, derrubaram imagens, silenciaram cânticos. Mas ninguém conseguiu explicar por que, ao pôr do sol, o sino ainda tocava, mesmo pendendo torto, mesmo sem corda, mesmo sem mãos.
Arandú
desapareceu. Uns disseram que tombou em combate. Outros juraram vê-lo
atravessar o pátio, tornando-se fumaça, tornando-se raiz, tornando-se tempo.
Séculos depois, um viajante pisaria aquelas ruínas e sentiria um arrepio sem saber por quê. Ao fechar os olhos, ouviu um sino distante — não como lembrança, mas como chamado.
👏👏
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