O Sino que não caiu.

São João Batista -onde o tempo ainda reza em guarani.

     As reduções Jesuíticas sempre exerceram certo fascínio sobre minha mente. Atualmente o município de São Miguel das Missões; abriga as ruinas da antiga redução de São Miguel Arcanjo, talvez a mais explendorosa redução dos "trinta pueblos". Entretando, por razões que minha vã filosofia não consegue explicar; tenho uma paixão especial pela Redução de São João Batista, fundada pelo Padre Antônio Sepp. Ela é cenário do meu primeiro romance... espero que eu tenha tempo de vida suficiente para publicá-lo, mas se não tiver, deixo para os amigos uma pontinha do conteúdo do livro.

Ruinas de São João Batista. Município de Entre-Ijuis.

O sino que não caiu

Na madrugada anterior ao combate, a redução de São João Batista respirava como um animal ferido que ainda não sabe que vai morrer. A neblina vinha do rio como um incenso antigo, cobrindo as casas de pedra, o colégio, a igreja e o pátio onde, séculos depois, apenas o vento ousaria pisar.

Arandú; velho rezador e guardião das palavras, caminhava descalço até o sino maior. Diziam que o dobrador, fora fundido com prata e lágrimas... foi trazido de Córdoba pelos padres; mas despertado pelos cantos guaranis. Não era apenas um sino: era um chamador de almas.

A guerra se aproximava. Espanhóis e portugueses já haviam decidido; em mapas frios, que aquele povo não existia. Mas Arandú sabia: quem é lembrado pelo espírito da terra nunca morre por decreto. Quando o primeiro tambor soou ao longe... o som não era das rezas guarani, nem europeu; mas o ritmo seco da pólvora.

 - Arandú pousou a mão no bronze do sino. Sentiu pulsar ali não o metal; mas o coração da missão.

                - Rezou baixo, em guarani antigo, pedindo não a vitória, mas a permanência.

- Ñande Reko não se entrega — sussurrou.

                - Naquele instante, o tempo se dobrou.

        Os jovens guerreiros que corriam para as paliçadas viram, por um segundo, figuras caminhando entre eles: padres de batina rasgada, crianças ainda não nascidas, velhos que morreriam naquela manhã e outros que só existiriam na memória futura. Todos marchavam juntos, como se a redução inteira tivesse se tornado um único corpo.

- O primeiro tiro ecoou.

           O sino deveria cair; assim diziam as profecias dos invasores... mas não caiu. O impacto da bala que o atingiu atravessou o bronze sem som, como se o metal tivesse se tornado água. O badalo tocou sozinho, não para os vivos, mas para os que ainda viriam ouvir.

    Quando São João Batista foi tomada, queimaram casas, derrubaram imagens, silenciaram cânticos. Mas ninguém conseguiu explicar por que, ao pôr do sol, o sino ainda tocava, mesmo pendendo torto, mesmo sem corda, mesmo sem mãos.

Arandú desapareceu. Uns disseram que tombou em combate. Outros juraram vê-lo atravessar o pátio, tornando-se fumaça, tornando-se raiz, tornando-se tempo.

    Séculos depois, um viajante pisaria aquelas ruínas e sentiria um arrepio sem saber por quê. Ao fechar os olhos, ouviu um sino distante — não como lembrança, mas como chamado.

 Porque São João Batista não caiu... Apenas mudou de plano!


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